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Abc da SaúdeEntrevista

 

Adriana Sandini Mioto
Dra. Alice Zelmanowicz

 

Conhecido desde o início da história da medicina, o câncer ocupa lugar de destaque entre as causas de morte. Nessa entrevista, realizada com a Dra. Alice Zelmanowicz, coordenadora do Departamento de Epidemiologia e Prevenção do Centro de Câncer da Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre e autora de diversas publicações, vamos conhecer melhor essa enfermidade, seus sinais, sintomas e conseqüências, já que desde a sua descoberta muito se avançou em conhecimentos e tratamentos.

Rainha – O que é o câncer?

Alice Zelmanowicz - Câncer é uma doença que acontece quando um grupo de células perde as suas características originais e passa a crescer desordenadamente. Essas células se multiplicam mais rapidamente que o tecido original que lhe deu origem e comprimem os órgãos a sua volta, dando sinais e sintomas. Além disso, suas células, as células malignas, têm a capacidade de invadir os tecidos a sua volta e se despregarem, entrarem na corrente sangüínea ou linfática e se alojarem em um tecido distante, o que se chama de metástase. Essa perda de características e controle sobre o crescimento celular pode acontecer em qualquer tecido ou órgão do corpo.

A forma como o câncer vai se manifestar depende basicamente do tipo de célula que sofreu essas alterações e o local ou órgão do corpo onde isso aconteceu. Já as metástases se originam em um lugar e aparecem noutro, mas têm características semelhantes às células do tumor que deu origem a elas. Por exemplo, um câncer de mama pode dar metástase para o pulmão ou cérebro e essas células vão se parecer, em nível microscópico, às do tumor de mama.

Rainha – Por que as pessoas têm tanto medo dessa enfermidade que em muitos casos se referem a ela como aquela doença, evitando pronunciar seu nome?

Alice Zelmanowicz - O câncer, por um longo tempo dentro da história da medicina, sofreu de um grande tabu e provocou muito medo, porque não havia tecnologia para o diagnóstico preciso e precoce. Além disso, os tratamentos provocavam muitos efeitos colaterais e sofrimento sem que uma real mudança na história natural da doença se conseguisse. Naquela época, uma pessoa com diagnóstico de câncer era vista como alguém que iria sofrer muito com o tratamento e com os sintomas da evolução da doença e, por fim, iria morrer envolta em muita dor e tristeza. Como foi há tempos também com outras doenças como a tuberculose. Porém, com o avanço da ciência, novas ferramentas para fazer o diagnóstico e novas alternativas de tratamento mudaram essa realidade, e hoje convivemos com pessoas que tiveram câncer, fizeram os tratamentos necessários e vivem uma vida tão normal quanto outras que têm outras doenças crônico-degenerativas.

Ainda hoje, as pessoas com câncer sofrem muito com o medo e por vezes a discriminação de seus próximos. Isso acontece porque muitas pessoas ainda não reconhecem como o tratamento e o prognóstico de uma pessoa com câncer mudaram. Ver alguém de peruca ou saber que está fazendo quimioterapia ainda causa muito desconforto ou pena, apesar de, na maioria das vezes, o próprio paciente não estar se sentindo assim tão mal.

Rainha – Quando desconfiar que se está com câncer?

Alice Zelmanowicz - Toda pessoa que nota alguma coisa diferente no seu corpo, como um nódulo, um sangramento anormal ou dor não explicada por uma razão identificável deve procurar um médico da sua confiança para ser examinada. Esses sintomas não necessariamente estão relacionados ao câncer, porém são o que se chama de sinais de alerta e só um médico pode fazer o diagnóstico diferencial. Emagrecimento não esperado ou planejado também fazem parte dos sinais de alerta.

Pessoas que têm um parente de primeiro grau com algum tipo de câncer devem ficar atentas para possíveis sinais ou sintomas relacionados àquele tipo de câncer, visto que a sua chance de desenvolver o mesmo tipo sempre é maior do que a das outras pessoas.

Pessoas expostas a fatores de risco conhecidos, como fumantes, por exemplo, devem consultar seu médico regularmente e sempre que notarem alguma alteração não explicada no seu corpo, já que esses fatores podem elevar o seu risco de desenvolver câncer.

Rainha – Todos os tipos são previsíveis, detectáveis precocemente?

Alice Zelmanowicz - Detecção precoce é aquela quando se descobre um câncer antes mesmo que ele cause alguma alteração nas pessoas em forma de sinais ou sintomas. A maior parte dos cânceres não pode ser detectada precocemente, porque não existe tecnologia para isso. Porém, a boa notícia é que os cânceres mais comuns e que mais causam mortes podem ser prevenidos de alguma forma. O câncer de mama, cólon e próstata podem ser detectados precocemente em muitas situações.

Rainha – Que tipo de testes são utilizados com esse objetivo?

Alice Zelmanowicz -

Cada tipo de câncer é diagnosticado de uma forma específica. Usualmente, eles são diagnosticados precocemente pelo exame físico de um médico quando a pessoa vai a uma consulta de rotina ou por alguma alteração. Se o médico encontra algo que sugere uma doença específica, solicita exames complementares para confirmar a sua suspeita. Se não encontra nada, ainda assim solicitará exames de imagem ou de laboratório que devem ser feitos periodicamente para detectar lesões pré-malignas ou cânceres na sua fase bem inicial. Para o câncer de mama, esse exame é a mamografia. Para o câncer de cólon pode ser uma endoscopia do trato digestivo baixo, como a colonoscopia ou retossigmoidoscopia.

Rainha – Se um câncer é detectado cedo, a medicina possui meios de mudar o rumo natural da doença?

Alice Zelmanowicz - Só se faz exames para detectar precocemente os cânceres que se tratados precocemente também causem menos sofrimento e menos morte. Não se faz a uma pessoa saber que ela tem câncer tão cedo quanto possível se não se pode oferecer uma mudança na história natural dessa doença. Apesar de parecer pouco lógico, ainda não temos recursos técnicos para alterar a evolução de todos os tipos de câncer.

Rainha – Os estudos científicos já descobriram quem são os mais propensos a desenvolver algum câncer?

Alice Zelmanowicz - A maioria está relacionada a alguns fatores de risco conhecidos. São eles: fumo, álcool, obesidade, sedentarismo e dieta pobre em alimentos de origem vegetal. As pessoas que têm um estilo de vida com esses hábitos são aquelas com maior chance de ter um câncer.

Rainha – Há alguma predisposição genética?

Alice Zelmanowicz - Ter tido um parente próximo com algum câncer confere à pessoa um maior risco de ter aquele tipo de câncer. A isso se chama agregação familiar. O que significa que os cânceres podem se agregar em famílias. Isso acontece em parte porque esses cânceres podem ter uma predisposição genética, mas em parte também pelo estilo de vida, hábitos e características culturais que se agregam em famílias. Pessoas expostas a fatores de risco semelhantes podem desenvolver o mesmo tipo de câncer.

Rainha – Quais são os tratamentos disponíveis hoje? Todos os tipos são tratados igualmente?

Alice Zelmanowicz - Os tipos de tratamento para cânceres mais comuns são cirurgia, quimioterapia e radioterapia. Eles são escolhidos dependendo onde o câncer começou, em que estágio de evolução está, quanto se espalhou e quais são as condições clínicas do paciente.

Rainha – Como é o desenvolvimento? Ele já pode ser considerado maligno desde o início?

Alice Zelmanowicz - Todas as pessoas têm células malignas circulantes no seu corpo. O sistema imune limpa o corpo dessas células, e essas pessoas nunca terão um tumor. Porém, em alguns, o sistema imune não consegue fazer essa limpeza adequadamente e essas células passam a se desenvolver desordenadamente. Quando o conjunto dessas células passa a invadir os tecidos em volta e causa algum tipo de sintoma é que se diz que ela está com um câncer. Em alguns tipos de câncer é possível identificar os estágios iniciais desses tumores. Nesses casos, fala-se em estágio pré-maligno. Se não se fizer nada e as células continuarem a se desenvolver, acabará se tornando um câncer.

O tempo entre uma célula maligna não ser identificada pelo sistema imune e ganhar a capacidade de continuar a se reproduzir desordenadamente até se tornar um câncer é provavelmente diferente para cada tipo de câncer e também para cada tipo de pessoa, dependendo a que fatores de risco essa pessoa está exposta e como funciona o seu sistema imune.

Rainha – O que é metástase?

Alice Zelmanowicz - Metástase é um tumor que se iniciou em um tecido ou órgão e que, através dos vasos sangüíneos ou linfáticos, foi se alojar num local diferente de onde começou.

Rainha – Há cura para algum tipo? Quais são os mais agressivos?

Alice Zelmanowicz - Vários tipos de câncer quando detectados e tratados precocemente têm cura, como o câncer de pele ou útero. Mesmo alguns quando detectados em uma fase mais avançada podem ser curados, como o de testículo ou alguns cânceres de crianças. Os tipos mais agressivos são os sarcomas e os melanomas.

Rainha – O que determina se uma pessoa irá se curar ou não?

Alice Zelmanowicz - A chance de cura de uma pessoa está relacionada ao tipo de câncer que ela tem e em que estágio está quando inicia o tratamento. Além disso, para os tumores em que a primeira opção de tratamento for cirurgia, é importante que se consiga retirar todo o tumor para que aumente a chance de cura. É necessário lembrar, porém, que muitas pessoas vivem com uma boa qualidade de vida mesmo que não estejam curadas completamente. Elas controlam o câncer e não são afetadas necessariamente no seu dia-a-dia pela presença do tumor.

Rainha – Quais os principais fatores de risco?

Alice Zelmanowicz - Fumo de qualquer tipo, uso de bebidas alcoólicas de forma abusiva, obesidade, sedentarismo, dieta pobre em alimentos de origem vegetal, exposição ao sol em horário e quantidade inadequados e se expor a infecções relacionadas a câncer, como o vírus da hepatite B e C, o vírus do papiloma humano (HPV) e o vírus da imunodeficiência adquirida (HIV).

Rainha – Para diminuir as chances de desenvolver um câncer, quais são as suas sugestões?

Alice Zelmanowicz - Procure um estilo de vida saudável. Evite hábitos reconhecidamente relacionados ao desenvolvimento de câncer. Visite o seu médico regularmente e faça uma consulta sempre que identificar algo alterado no seu corpo ou tiver algum sintoma.

Rainha – Qual a incidência de cânceres nas crianças? Quais os mais comuns e que cuidados os pais devem ter com seus filhos para evitar ou detectar precocemente qualquer anormalidade?

Alice Zelmanowicz - Câncer em crianças são muito raros quando comparados com a incidência em adultos. Os dados sobre câncer na infância são muito difíceis de serem compilados. No Brasil, esses dados não representam provavelmente a realidade, além de serem relativamente antigos.

Os cânceres mais freqüentes na infância são as leucemias que acometem os glóbulos brancos, os tumores do sistema nervoso central e os linfomas que acometem os gânglios e sistema linfático. Também acometem crianças o neuroblastoma (tumor de gânglios simpáticos), tumor de Wilms (tumor renal), retinoblastoma (tumor da retina do olho), tumor germinativo (tumor das células que vão dar origem às gônadas), osteossarcoma (tumor ósseo) e os sarcomas (tumores de partes moles).

Segundo o Instituto Nacional do Câncer (Inca), é importante os pais saberem que algumas alterações podem estar relacionadas a esses tumores. Por exemplo:

  • Nas leucemias, pela invasão da medula óssea por células anormais, a criança se torna suscetível a infecções, fica pálida, tem sangramento e sente dor óssea.
  • No retinoblastoma, um sinal importante de manifestação é o chamado reflexo do olho do gato, embranquecimento da pupila quando exposta à luz. Pode se apresentar, também, através de fotofobia ou estrabismo. Geralmente acomete crianças antes dos três anos de idade.Algumas vezes, os pais notam uma massa no abdome, podendo tratar-se, nesse caso também, de um tumor de Wilms ou neuroblastoma.Tumores sólidos podem se manifestar pela formação de um tumor, podendo ser visível e causar dor nos membros, sintoma, por exemplo,
    freqüente no osteossarcoma (tumor no osso em crescimento), mais comum em adolescentes.
  • Tumor de sistema nervoso central tem como sintomas dor de cabeça, vômitos, alterações motoras, alterações cognitivas e paralisia de nervos.
  • Criança não inventa sintomas. Se alguma anormalidade aparecer, os pais devem levar os seus filhos ao pediatra para uma avaliação. No entanto, é muito importante saber que, na grandíssima maioria das vezes, esses sintomas estão relacionados a doenças comuns na infância e não a câncer. Mas isso não deve ser motivo para deixar de levá-la ao médico.

 

Fontes: INCA/MS, 2002. Prevenção e Controle de Câncer. Revista
Brasileira de Cancerologia
INCA/MS, 2002. Programa nacional de Controle do Câncer da Próstata:
documento de consenso
INCA/MS, 2003. Consenso para o Controle do Câncer de Mama

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