Conhecido desde o início da história da medicina,
o câncer ocupa lugar de destaque entre as causas de morte.
Nessa entrevista, realizada com a Dra. Alice Zelmanowicz, coordenadora
do Departamento de Epidemiologia e Prevenção do Centro
de Câncer da Irmandade da Santa Casa de Misericórdia
de Porto Alegre e autora de diversas publicações,
vamos conhecer melhor essa enfermidade, seus sinais, sintomas e
conseqüências, já que desde a sua descoberta muito
se avançou em conhecimentos e tratamentos.
Rainha
– O que é o câncer?
Alice
Zelmanowicz - Câncer é uma doença que acontece
quando um grupo de células perde as suas características
originais e passa a crescer desordenadamente. Essas células
se multiplicam mais rapidamente que o tecido original que lhe deu
origem e comprimem os órgãos a sua volta, dando sinais
e sintomas. Além disso, suas células, as células
malignas, têm a capacidade de invadir os tecidos a sua volta
e se despregarem, entrarem na corrente sangüínea ou
linfática e se alojarem em um tecido distante, o que se chama
de metástase. Essa perda de características e controle
sobre o crescimento celular pode acontecer em qualquer tecido ou
órgão do corpo.
A
forma como o câncer vai se manifestar depende basicamente
do tipo de célula que sofreu essas alterações
e o local ou órgão do corpo onde isso aconteceu. Já
as metástases se originam em um lugar e aparecem noutro,
mas têm características semelhantes às células
do tumor que deu origem a elas. Por exemplo, um câncer de
mama pode dar metástase para o pulmão ou cérebro
e essas células vão se parecer, em nível microscópico,
às do tumor de mama.
Rainha
– Por que as pessoas têm tanto medo dessa enfermidade
que em muitos casos se referem a ela como aquela doença,
evitando pronunciar seu nome?
Alice
Zelmanowicz - O câncer, por um longo tempo
dentro da história da medicina, sofreu de um grande tabu
e provocou muito medo, porque não havia tecnologia para o
diagnóstico preciso e precoce. Além disso, os tratamentos
provocavam muitos efeitos colaterais e sofrimento sem que uma real
mudança na história natural da doença se conseguisse.
Naquela época, uma pessoa com diagnóstico de câncer
era vista como alguém que iria sofrer muito com o tratamento
e com os sintomas da evolução da doença e,
por fim, iria morrer envolta em muita dor e tristeza. Como foi há
tempos também com outras doenças como a tuberculose.
Porém, com o avanço da ciência, novas ferramentas
para fazer o diagnóstico e novas alternativas de tratamento
mudaram essa realidade, e hoje convivemos com pessoas que tiveram
câncer, fizeram os tratamentos necessários e vivem
uma vida tão normal quanto outras que têm outras doenças
crônico-degenerativas.
Ainda
hoje, as pessoas com câncer sofrem muito com o medo e por
vezes a discriminação de seus próximos. Isso
acontece porque muitas pessoas ainda não reconhecem como
o tratamento e o prognóstico de uma pessoa com câncer
mudaram. Ver alguém de peruca ou saber que está fazendo
quimioterapia ainda causa muito desconforto ou pena, apesar de,
na maioria das vezes, o próprio paciente não estar
se sentindo assim tão mal.
Rainha
– Quando desconfiar que se está com câncer?
Alice
Zelmanowicz - Toda pessoa que nota alguma coisa
diferente no seu corpo, como um nódulo, um sangramento anormal
ou dor não explicada por uma razão identificável
deve procurar um médico da sua confiança para ser
examinada. Esses sintomas não necessariamente estão
relacionados ao câncer, porém são o que se chama
de sinais de alerta e só um médico pode fazer o diagnóstico
diferencial. Emagrecimento não esperado ou planejado também
fazem parte dos sinais de alerta.
Pessoas
que têm um parente de primeiro grau com algum tipo de câncer
devem ficar atentas para possíveis sinais ou sintomas relacionados
àquele tipo de câncer, visto que a sua chance de desenvolver
o mesmo tipo sempre é maior do que a das outras pessoas.
Pessoas
expostas a fatores de risco conhecidos, como fumantes, por exemplo,
devem consultar seu médico regularmente e sempre que notarem
alguma alteração não explicada no seu corpo,
já que esses fatores podem elevar o seu risco de desenvolver
câncer.
Rainha
– Todos os tipos são previsíveis, detectáveis
precocemente?
Alice
Zelmanowicz - Detecção precoce é
aquela quando se descobre um câncer antes mesmo que ele cause
alguma alteração nas pessoas em forma de sinais ou
sintomas. A maior parte dos cânceres não pode ser detectada
precocemente, porque não existe tecnologia para isso. Porém,
a boa notícia é que os cânceres mais comuns
e que mais causam mortes podem ser prevenidos de alguma forma. O
câncer de mama, cólon e próstata podem ser detectados
precocemente em muitas situações.
Rainha
– Que tipo de testes são utilizados com esse objetivo?
Alice
Zelmanowicz -
Cada
tipo de câncer é diagnosticado de uma forma específica.
Usualmente, eles são diagnosticados precocemente pelo exame
físico de um médico quando a pessoa vai a uma consulta
de rotina ou por alguma alteração. Se o médico
encontra algo que sugere uma doença específica, solicita
exames complementares para confirmar a sua suspeita. Se não
encontra nada, ainda assim solicitará exames de imagem ou
de laboratório que devem ser feitos periodicamente para detectar
lesões pré-malignas ou cânceres na sua fase
bem inicial. Para o câncer de mama, esse exame é a
mamografia. Para o câncer de cólon pode ser uma endoscopia
do trato digestivo baixo, como a colonoscopia ou retossigmoidoscopia.
Rainha
– Se um câncer é detectado cedo, a medicina possui
meios de mudar o rumo natural da doença?
Alice
Zelmanowicz - Só se faz exames para detectar
precocemente os cânceres que se tratados precocemente também
causem menos sofrimento e menos morte. Não se faz a uma pessoa
saber que ela tem câncer tão cedo quanto possível
se não se pode oferecer uma mudança na história
natural dessa doença. Apesar de parecer pouco lógico,
ainda não temos recursos técnicos para alterar a evolução
de todos os tipos de câncer.
Rainha
– Os estudos científicos já descobriram quem
são os mais propensos a desenvolver algum câncer?
Alice
Zelmanowicz - A maioria está relacionada
a alguns fatores de risco conhecidos. São eles: fumo, álcool,
obesidade, sedentarismo e dieta pobre em alimentos de origem vegetal.
As pessoas que têm um estilo de vida com esses hábitos
são aquelas com maior chance de ter um câncer.
Rainha
– Há alguma predisposição genética?
Alice
Zelmanowicz - Ter tido um parente próximo
com algum câncer confere à pessoa um maior risco de
ter aquele tipo de câncer. A isso se chama agregação
familiar. O que significa que os cânceres podem se agregar
em famílias. Isso acontece em parte porque esses cânceres
podem ter uma predisposição genética, mas em
parte também pelo estilo de vida, hábitos e características
culturais que se agregam em famílias. Pessoas expostas a
fatores de risco semelhantes podem desenvolver o mesmo tipo de câncer.
Rainha
– Quais são os tratamentos disponíveis hoje?
Todos os tipos são tratados igualmente?
Alice
Zelmanowicz - Os tipos de tratamento para cânceres
mais comuns são cirurgia, quimioterapia e radioterapia. Eles
são escolhidos dependendo onde o câncer começou,
em que estágio de evolução está, quanto
se espalhou e quais são as condições clínicas
do paciente.
Rainha
– Como é o desenvolvimento? Ele já pode ser
considerado maligno desde o início?
Alice
Zelmanowicz - Todas as pessoas têm células
malignas circulantes no seu corpo. O sistema imune limpa o corpo
dessas células, e essas pessoas nunca terão um tumor.
Porém, em alguns, o sistema imune não consegue fazer
essa limpeza adequadamente e essas células passam a se desenvolver
desordenadamente. Quando o conjunto dessas células passa
a invadir os tecidos em volta e causa algum tipo de sintoma é
que se diz que ela está com um câncer. Em alguns tipos
de câncer é possível identificar os estágios
iniciais desses tumores. Nesses casos, fala-se em estágio
pré-maligno. Se não se fizer nada e as células
continuarem a se desenvolver, acabará se tornando um câncer.
O
tempo entre uma célula maligna não ser identificada
pelo sistema imune e ganhar a capacidade de continuar a se reproduzir
desordenadamente até se tornar um câncer é provavelmente
diferente para cada tipo de câncer e também para cada
tipo de pessoa, dependendo a que fatores de risco essa pessoa está
exposta e como funciona o seu sistema imune.
Rainha
– O que é metástase?
Alice
Zelmanowicz - Metástase é um tumor
que se iniciou em um tecido ou órgão e que, através
dos vasos sangüíneos ou linfáticos, foi se alojar
num local diferente de onde começou.
Rainha
– Há cura para algum tipo? Quais são os mais
agressivos?
Alice
Zelmanowicz - Vários tipos de câncer
quando detectados e tratados precocemente têm cura, como o
câncer de pele ou útero. Mesmo alguns quando detectados
em uma fase mais avançada podem ser curados, como o de testículo
ou alguns cânceres de crianças. Os tipos mais agressivos
são os sarcomas e os melanomas.
Rainha
– O que determina se uma pessoa irá se curar ou não?
Alice
Zelmanowicz - A chance de cura de uma pessoa está
relacionada ao tipo de câncer que ela tem e em que estágio
está quando inicia o tratamento. Além disso, para
os tumores em que a primeira opção de tratamento for
cirurgia, é importante que se consiga retirar todo o tumor
para que aumente a chance de cura. É necessário lembrar,
porém, que muitas pessoas vivem com uma boa qualidade de
vida mesmo que não estejam curadas completamente. Elas controlam
o câncer e não são afetadas necessariamente
no seu dia-a-dia pela presença do tumor.
Rainha
–
Quais os principais fatores de risco?
Alice
Zelmanowicz - Fumo de qualquer tipo, uso de bebidas
alcoólicas de forma abusiva, obesidade, sedentarismo, dieta
pobre em alimentos de origem vegetal, exposição ao
sol em horário e quantidade inadequados e se expor a infecções
relacionadas a câncer, como o vírus da hepatite B e
C, o vírus do papiloma humano (HPV) e o vírus da imunodeficiência
adquirida (HIV).
Rainha
– Para diminuir as chances de desenvolver um câncer,
quais são as suas sugestões?
Alice
Zelmanowicz - Procure um estilo de vida saudável.
Evite hábitos reconhecidamente relacionados ao desenvolvimento
de câncer. Visite o seu médico regularmente e faça
uma consulta sempre que identificar algo alterado no seu corpo ou
tiver algum sintoma.
Rainha
– Qual a incidência de cânceres nas crianças?
Quais os mais comuns e que cuidados os pais devem ter com seus filhos
para evitar ou detectar precocemente qualquer anormalidade?
Alice
Zelmanowicz - Câncer em crianças são
muito raros quando comparados com a incidência em adultos.
Os dados sobre câncer na infância são muito difíceis
de serem compilados. No Brasil, esses dados não representam
provavelmente a realidade, além de serem relativamente antigos.
Os
cânceres mais freqüentes na infância são
as leucemias que acometem os glóbulos brancos, os tumores
do sistema nervoso central e os linfomas que acometem os gânglios
e sistema linfático. Também acometem crianças
o neuroblastoma (tumor de gânglios simpáticos), tumor
de Wilms (tumor renal), retinoblastoma (tumor da retina do olho),
tumor germinativo (tumor das células que vão dar origem
às gônadas), osteossarcoma (tumor ósseo) e os
sarcomas (tumores de partes moles).
Segundo
o Instituto Nacional do Câncer (Inca), é importante
os pais saberem que algumas alterações podem estar
relacionadas a esses tumores. Por exemplo: